sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Tenho

da pitangueira, da morna tarde, da noite quente,
do vento arisco,
da nuvem de  poeira, 
uma indelével marca no meu corpo.


sábado, 24 de agosto de 2013

a tristeza infinita


Quando eu esperava pela felicidade, 
era a infelicidade que se aproximava.
Quando eu esperava encontrar a luz..... 
defrontava-me com as trevas.
Jo’ 30, 26


Cada vez mais perco o interesse pelos grandes fatos, históricos ou nao, que tentam, mudam ou nao mudam o curso do mundo, suas invenções e interpretações, paixões, empenhos e mobilizações. Também nao mais ligo suficiente para os mais recentes, tao próximos de nosso tempo que tornam-se insípidos ao olhar, e somente para os comentaristas interessa, em busca de uma ordem, regra ou lei que determine algum sentido as suas partes e pedaços isolados, e podem ter algum relevo.
Aprecio os antigos mitos, o sol de Apolo, a maldição de Jeremias, a pura ficção, o amor de Romeu e Julieta, a lembrança sem fim de Proust e os mínimos e corriqueiros fatos do cotidiano. Tao insignificantes, banais, que nem seus personagens percebem a sua existência e seu pulso, pequenos e rápidos que em um piscar se dissolvem contra o mar.
Como a tristeza infinita das mulheres, que no final da tarde, cansadas de trabalho inútil, esvaziam os seus olhares a espera do ônibus, fazendo costas para o oceano e o ce’u. Sao muitas, inúmeras, uma se’rie de mulheres, feias, mal arrumadas, os corpos disformes, a maioria negras. Enquanto aguardam, nao conversam entre si, silenciosas, desconhecidas que sao do mesmo sofrimento e da mesma dor compartilhadas. 
O que as espera no lar? Mais uma jornada, mais uma tristeza, filhos e perversos maridos.
Nao ha’ honra ou qualquer escolha para estas mulheres, nem imortalidade e lembrança, nem longa vida nem marcas de vitorias em suas maos nos moveis, nas roupas, nas comidas, e pouco, quase nada.  
Que nos resta, atual a sina da solidão e esvaziada a solidariedade, que soubemos fazer de nossos confortos e desilusões?
Que nos resta das mulheres infelizes?
Infinitos abandonos.

domingo, 30 de junho de 2013

A cidade infeliz.


em seus olhos, vejo minha perda escrita
racine


Sombreada pelo morro da fonte grande, cedo `a escuridão que ocupa as ruas, pessoas e fatais orgulhos na tarde fria, e faz de cinza os cheiros de brisa, impregnando de tristeza as faces da cidade de vitoria.
Uma surpreendente melancolia ocupa os corpos, pesa o espirito e congela a emoção, o olhar desfeito, em um cansaço banal, brutal, que enrola a língua, impede a fala e entrava a conversa. 
Negro abismo.
Da ausência ou da nevoenta historia, de índios e degredados, listas de escravos e imigrantes no cais, determino, assim espero, improvisado um caminho acima, uma previsão incerta. Mas logo desisto, diante da inquieta  e renovada feira de ilusões e vaidades, de encobertas( produzidas?) nuvens e tufões. 
Tempestades.
Consciente afasto o morto, preservando em ângulos e orientações a fresca do vento e a ponta formosa.
Mas nao basta tanto esforço e decisão. Sobraram restos, de todos umas partes e das ruínas nas velhas casas, nivelados os seus solos `as modernas presenças, restam os espíritos e os fantasmas da ordem original, do escuro primordial. 
Rimos, de desesperanças, de vazias ambições e desejos, insatisfeitos permanentes que somos do adiado consumo e do prazer incompleto. 
Gritamos imprecações, mas nao ha’ saída possível ao beco escuro e `a longa sombra que se espalha ponto a ponto, sem fim ou limites, sem controle sobre a cidade.
Pressentimento de luto.


kleber frizzera
30/ 06/ 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sitio dos tempos


Numa famosa carta a Walter Savage Landor, Wordsworth expressou uma preferência por visões em que as margens das coisas se dissolviam, com toda fixidez e densidade postas em fluxo, com os limites recuando e as expectativas vindo à luz. 
Os sítios do tempo não são momentos do lugar, nem ocorrem em um lugar. 
As crenças podem se localizar num santuário ou num local similar, mas frutificações demandam um continuum temporal. 
A fonte de cenas e de sons não é um topos, mas um acontecimento que se estende por duas épocas e conserva vivo o passado no presente.
Harold Bloom

segunda-feira, 4 de março de 2013

A diferença ou a identidade



Capixabas
Seremos tão pouco diferentes, a apresentar aos viajantes insuficientes e repetidas paisagens, vazias de novidades e surpresas,
Somos tao iguais, repetindo a exaustão semelhantes identidades, sem singularidades, sem particulares situações a surpreender nossos vizinhos?
Ou talvez, neste jeito calado de ser, feito de barrocas metáforas e vidas incompletas, mal nos reconhecemos como únicos e aos outros, tão diversos, não abrimos nenhuma porta ao encontro e ao conflito casual ?
Afinal somos tão pouco iguais ou tão pouco diferentes, que para ninguém interessa este local ?
E o que tem a ver a escolha do território, seus limites, seus recintos, a história e seus eventos registrados em edifícios e ladeiras, com este modo de ser ?
Estarão selados, indeléveis em suas faces, marcados em seus pisos, estes nossos desígnios naturais ? 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Avenida Vitoria



Para onde caminha esta cidade, 
onde seus trilhos apontam em direção ao infinito, onde
os postes, em fila, organizam a paisagem e o olhar,
e, altaneiro, o morro da Fonte Grande delimita o horizonte?
Para onde caminham os seus,
os nossos,
os outros depois, os novos outros,
o braco forte,
para onde caminha esta cidade?

kleber frizzera
fevereiro 2013

domingo, 26 de agosto de 2012

Viva Vitoria


Está esta vila de Vitória  em lugar igualmente defensável e cômodo para a vida humana: cercado de água, habitável por arte, junto ao rio, perto da barra, senhor de pescarias e mariscos sem número. Seus arredores são terra fértil, capaz de grandes canaviais e engenhos, seus campos amenos, retalhados de rios e fontes, suas matas recendem, são delicias de cheiros, bálsamos, copaíbas, sassafrazes, seus montes estão prenhes de minas de varia sorte de pedrarias, e segundo dizem, de prata e ouro, e será feliz o tempo em que saiam a luz com seu parto".
Simão de Vasconcelos, Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil,  In História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira.  Vitória, 2o edição, 1975.