terça-feira, 5 de maio de 2026

a cidade de todos

uma cidade é uma obra coletiva, uma soma de projetos individuais e comuns, um acúmulo do trabalho histórico de multidões, de trabalhadores, de moradores e do estado, de ganhos e perdas deixadas inscritas em seus edifícios, mas também evanescentes, registradas nos gestos, eventos, práticas culturais e compartilhamentos que compõem e deliciam a vida ordinária e extraordinária. 

amada e odiada, a cidade hoje, o lar da maioria da população brasileira, e as suas metrópoles que abrigam milhões de sonhos, derrotas, alegrias e decepções, amores e conflitos, são o maior e mais contínuo desejo histórico da humanidade, que há mais de 10.000 anos resolveu abandonar a vida nômade e se estabelecer em aldeias e plantações.
 
a desigualdade do acesso aos bens e aos serviços urbanos, públicos e privados é o maior problema que atinge as grandes cidades, principalmente nas questões da habitação digna, mobilidade e segurança, expondo nas suas faltas e carências, as contradições do sistema econômico e a crescente concentração, por alguns, das rendas pessoais e dos lucros empresariais. 

a maior expressão desta desigualdade urbana se mostra nas fortes segregações sociais, entre bairros e condomínios fechados dotados de todas as vantagens urbanas e as localizações afastadas em morros ou em ocupações populares, com as moradias e a acessibilidades precárias e com reduzidas ofertas de serviços públicos. 

 mas se a cidade e seus bairros é uma obra coletiva, porém distribuída e consumida de forma desigual, como o mercado imobiliário a está apropriando e vendendo, as suas qualidades ambientais, em seus anúncios publicitários, e agregando valor financeiro aos seus empreendimentos? 

antes de apresentar o seu produto a venda,n os anúncios, os investimentos imobiliários apresentam as vantagens dos bairros e das suas localizações, com maior argumento de venda, que gera qualidade e valor de troca/ uso para seus futuros ocupantes, compradores. 

 não caberia a este setor econômico, ao comercializar um valor que se agrega, soma e eleva os seus lucros dos lançamentos imobiliários, e que não foi produzida por eles, pagar uma contrapartida ou reembolsar parte dos custos das qualidades urbanas mercantilizadas? 

 se hoje, legalmente, os grandes empreendimentos já são obrigados a cobrir ou corrigir os seus impactos negativos ao meio urbano ou natural, porque não deveriam, da mesma forma, ressarcir os investimentos e impactos positivos, que estimulam as vendas e aumentam os valores dos imóveis?