domingo, 20 de março de 2011

Memoria: Desarmado


Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto foi regulado pelos becos tortos de onde veio,
carlos drumond de andrade

segunda-feira, 7 de março de 2011

“E qual é a medida dos meus dias?” salmo 38,5


Em uma cidade de Vitoria de tantos fracassos e projetos abortados em seus 460 anos de história provinciana, registradas em suas ruínas e nas falas de seus fantasmas, mais um futuro incerto se apresenta, agora de feito virtual, na sua articulação global, submetido às ordens do capital e das lógicas do mercado.


Poderemos superar este destino e nesta oposição cidade/mundo, vazadas as barreiras e fronteiras às imateriais e instantâneas ações e pensamentos, acelerados os movimentos dos corpos, bens e informação, e propor e viver a alegria e o prazer da finitude humana?
Começarei por um texto anotado ao acaso:
Estes dias não tem um ser verdadeiro;
Eles vão quase antes de chegar;
E quando vem, não podem continuar;
Comprimem-se uns contra os outros, seguem uns aos outros e não são capazes de interromper o próprio curso.
Do passado, nada é reconvocado;
O que é esperado é algo que há de passar novamente;
Ainda não é possuído, enquanto não tiver chegado;
Não pode ser capturado, depois que chega.
Este texto, que poderia ser tão atual, diante dos tempos que vivemos, é de Santo Agostinho, em Cidade dos Homens, quando se pronuncia diante do mundo antigo em transformação, de um império romano em colapso, no século IV:
Pergunta, como o salmista em Salmo 38,5:
 “E qual é a medida dos meus dias?”
E completa, na sua fé e esperança cristã:
“Eu anseio, por esse È que fica na Jerusalém, onde não haverá morte, onde não haverá fracasso, onde o dia não há de passar, um dia que não é precedido de um ontem, nem expulso por um amanhã.
Essa medida dos meus dias, o que é, digo eu, revela-te a mim.”
O desejo e’ da unidade, impossível, mas que precisa ser desejado como possibilidade na presença de um mundo em dissolução, onde nada é reconvocado, nada é possuído, onde a violência é o horizonte temporal da errancia, que aceita que uma promessa não se cumpra, um programa não se execute, como um movimento puro, uma fraternidade sem destino.
Violência, ausência, errância.
O poeta Paul Celan nos aponta uma potência:
Escrita estreita entre muros
Impraticável verdadeira
Esta
Ascensão e volta
No futuro claro coração.
Há um caminho, uma senda estreita entre muros, mas verdadeiro que seja, é impraticável, mas pensável.
Ali, nesta limitada passagem, onde valia a violência, sem destino ou fins, aparece, no limiar, a diferença mínima do alento do outro. 
Mas como fazer nossa esta alteridade?
A dificuldade primeira é que não existe um caminho já explorado, nada pré existe, nada antecipa esta tentativa, estamos sozinhos “diante do não navegado”, onde é preciso empreender a “ascensão e a volta”, que requer a voz e a presença do outro.
Este é o desafio.
Atuar no risco do movimento incessante, onde as posições se adquirem e se estabelecem, instáveis, através da circulação, dos bens, da informação e das pessoas, em um incessante conflito com o que se estabelece nos lugares pela transformação da matéria bruta pelo trabalho humano.
Atuar no risco da ação que se define, se altera se (re) conceitua no processo permanente de negociação coletiva, na feitura dos projetos, no desenho e na execução dos caminhos sem fins. 
Atuar no risco dos conflitos, na mobilidade dos acontecimentos, na diferença, no estar juntos e separados, espacialmente e socialmente, na disputa da riqueza material e simbólica, dos espaços e sítios. 
Atuar principalmente no tempo, para salvar o efêmero e o instante, contra o que tudo dissolve, contra o que tudo interrompe, contra o que tudo escapa e se desmancha no ar, por entre os ventos e brisas. 
Encerra Celan;
Do visível, do audível, a
Palavra tenda 
Que se libera:
Juntos.

sábado, 5 de março de 2011

Ventos e tempestades



Edifícios são objetos e sujeitos de nossos sonhos, flutuam em nossos desenhos e nossas mentes, vagam pelos ares circulando por entre altas nuvens até que possam pousar, em ofertas propícias, sobre os nossos sítios e lugares. 
Projetos são desejos que rasgam as manhãs e as tardes, enveredam sozinhos nas cidades, em contramão, como brisas que permeiam esperança nos estreitos intervalos das duras pedras de nossas ruas e solidões. 
São como ventos generosos que nos insuflam alegrias e possibilidades nunca imaginadas até serem pensadas e inventadas.
São como intempestivas tempestades a correr e mover os céus, empurrando ao longe as tristezas e melancolias do repetido, do banal e do igual.
E quando eles e elas cessam, ventos e tempestades, na calmaria da morte, somos menos e menores porque nos faltam a sua fala e o seu desígnio.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Na matéria das pedras

Nas cidades, há uma convivência de duas séries, do presente e do passado, onde as suas coisas materiais habitam simultaneamente as duas. Eduardo Gruner, em uma leitura de Walter Benjamin, diz: La arquitectura es el arte que más intensas y dramáticamente conserva la memória arcaica de las necessidades primarias de la espécie”. Para ele, a arquitetura é o lugar onde se desnuda a contradição, onde se expõem os conflitos entre os desejos mais arcaicos da humanidade, o desejo de reconciliação entre a natureza e o mundo e a realidade da alienação capitalista, do fetichismo da mercadoria, “ da impossibilidade do cumprimento cabal desta promessa de reconciliação”. Na arquitetura e na cidade, em suas ruínas superpostas da história dos vencedores, não basta a presença de uma memória critica, mas é necessário um choque, “um curto circuito com a infelicidade do presente”, para a constituição da memória antecipada do futuro redimido. E” preciso uma memória que desperte a nostalgia do que nunca existiu e a projete em direção a uma redenção futura através de uma mimesis transubjetiva.
Em algum momento, os objetos arquitetonicos participaram da feitura de um momento, abrigaram eventos, práticas e procedimentos, prazeres e dores, imprimiram em seus muros valores e significados de uma época e de uma cultura. O que continua, o que resta permanente, tentando informar um sentido cósmico à natureza e à phisis, à cultura e arte, o que se resta do que se esvai e se abre/ se esconde ao compartilhamento, à tradução, à tradição, estão suportados em registros construídos, para serem desvelados, em sua aparência quotidiana, nas cidades, nas suas sombras e seus edifícios, aos seus futuros ocupantes.
Ali, impressos na matéria das pedras e na ordem da formas, retém-se, para a interpretação e potencialização, acumulados por décadas e séculos, uma massa de informação, onde a superposição das ações históricas foi as misturando, contíguas e superpostas, que ao primeiro olhar curioso de possuí-las e organizá-las se segue imediatamente uma sensação de desconforto e desanimo. Como se não fosse possível desvencilhar os fios e tramas que as compuseram, ou, que quando possível, apenas se apresentasse à contemplação e `a leitura um texto ininteligível que nenhum código, por mais complexo ou universal, fosse capaz de recuperar parte ou a totalidade de seus sentidos originais.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Alguns lugares e edifícios


Alguns lugares e edifícios urbanos, ainda que aparentemente conservados, no tempo e no espaço, em suas totalidades físicas originárias, aparecem como formas melancólicas na experiência quotidiana ou excepcional. Fixados em antigos locais, encobertos com superpostas ações, do tempo natural e da história humana, tais lugares vão se tornando, ao passar dos anos, cada vez mais herméticos, velados à leitura sensível ou racional, principalmente quando situados nos centros das grandes cidades, onde radicais e apressadas transformações alteram o ambiente urbano e apagam as histórias dos acontecimentos para os quais foram desejados e construídos. Mesmo quando um projeto de preservação lhes busca devolver a matéria e a cor primeira, lhes tenta reajustar a ordem primitiva que os conformou, somente uma pálida aura sobrevive nesta ineficaz recuperação, deixando vazar, em pequenos instantâneos, fugazes brilhos dos eventos anunciados, mal refletindo nos olhares e nas calçadas as vontades e projetos que lhes deram forma, significado e estrutura.

No acúmulo urbano destes objetos contíguos ou superpostos, lançados em partes e fragmentos à uma possível compreensão futura, em uns mais, em outros menos, escapam de seus resíduos construídos pequenas partes, que ao desfiar da razão e sentimento embaralham-se, a princípio, sem sentidos.

Em outros se oferece o tecido desfeito, que ao acompanhar, atento, o risco do bordado de um pequeno motivo podemos recuperar o desenho completo, tal como uma tapeçaria que ao refazer a cauda do leão, a imagem completa da floresta, da caça e dos caçadores irrompe, com seus úmidos verdes, suas trompas e cachorros, cheiros e gritos, inundando de movimento, ruído, ouro e vida a manhã aristocrata.

Na primeira coleta e apreciação destes indícios, os sentidos humanos inicialmente se extasiam, surpresos com tanta maravilha e encanto, surpreendidos com tantos mistérios e novidades, que nem percebem a aflição que neles emana e contagia; que nem ouvem as suas falas miúdas interrompidas, que nem escutam as suas mudas fantasias.

Se deles, destes edifícios e lugares melancólicos, nos aproximamos e escutamos atentamente estes sussuros, logo afastamo-nos com horror. Deles, de suas frestas, de seus intervalos e vazios, escorrem uma longa lista de dores e sofrimentos. Deles, de suas paralisias e sombras, murmúrios escapam desejos insatisfeitos, exalam desencantos, expiam torturas.

Ao se acercar refeitos, de volta, em um outro dia ou instante, a estes lugares, poderemos nos surpreender com este fogo agora morto, apagado. Nem um brilho, uma luz, um cheiro, um som, a vazar daquele objeto que no dia anterior parecia refletir e expor, mesmo incompleto, um texto aberto ao múltiplo entendimento e à admiração. Aí, agora, nada mais parece articular os escombros, estruturar os vãos e paredes ainda de pé, aí, nada revela, à rua, as pessoas e acontecimentos que, porventura, se movem em seus interiores, por entre os móveis realizam seus afazeres quotidianos e já não se recordam dos outros, indivíduos e eventos, que, anteriores, ergueram os tetos e paredes e riscaram as suas faces. Nem um eco, nem um espírito. Neste momento, são expulsos para ao longe, suas vozes e escrituras, como se um vento forte tivesse varrido para sempre de cada canto, de cada detalhe, de cada pedra, as memórias e lembranças do passado.

Nas cidades, na minha e em tantas outras, há uma convivência, uma simultaneidade destas duas séries, uma linha do presente e a outra, eco do longínquo, onde todo objeto comum, material e construído, aparenta habitar ao mesmo tempo as duas presenças, deixando aparecer alternadamente, a seu gosto, uma ou outra face ao nosso olhar de curiosidade.

São experiências distintas ou uma única, esta aparente dupla e oposta percepção e entendimento do mesmo edifício ou lugar?

Dependem unicamente de nós, de nossa especial atenção ou descuido a eles dirigido, alterado pelo momento ou emoção, ou esta ambigüidade é da essência da própria coisa, que só se deixa aparecer por instantes, expondo-se aleatoriamente ou pouco suficiente ao seu gosto instável e incerto interesse?


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Infinito


Não temo obstáculo de cristal ou vidro,
ascendo aos mundos das estrelas e me aventuro no infinito,
deixando a meus pés o globo terrestre
Giordano Bruno


O professor e arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em Vitória , olhava o mar, no mesmo lugar onde ele depois projetou o Cais das Artes. e apontando o horizonte sem fim ensolarado, me dizia : " Veja a África, ela está logo ali", girou o corpo em uma mudança de 180 graus, mirou as montanhas que encerram o sítio natural da cidade a oeste, e continuou : " E o oceano Pacifico, fica logo após estes montes. Vitória é o porto, o portal que liga a África `a América Latina ".
O que faz que quando olhamos o mundo, com os pés sobre o solo, muitos olhos identifiquem os limites, se regozijem e se submetam com a demarcação, as cercas e os muros, e ao mesmo tempo outros, nos mesmos lugares, identifiquem e percebam o ilimitado, o infinito, o que está além das fronteiras, o que ultrapassa o ponto de fuga próximo?
Vendo menos, será possível imaginar mais”, diz Rosseau.