domingo, 30 de junho de 2013

A cidade infeliz.


em seus olhos, vejo minha perda escrita
racine


Sombreada pelo morro da fonte grande, cedo `a escuridão que ocupa as ruas, pessoas e fatais orgulhos na tarde fria, e faz de cinza os cheiros de brisa, impregnando de tristeza as faces da cidade de vitoria.
Uma surpreendente melancolia ocupa os corpos, pesa o espirito e congela a emoção, o olhar desfeito, em um cansaço banal, brutal, que enrola a língua, impede a fala e entrava a conversa. 
Negro abismo.
Da ausência ou da nevoenta historia, de índios e degredados, listas de escravos e imigrantes no cais, determino, assim espero, improvisado um caminho acima, uma previsão incerta. Mas logo desisto, diante da inquieta  e renovada feira de ilusões e vaidades, de encobertas( produzidas?) nuvens e tufões. 
Tempestades.
Consciente afasto o morto, preservando em ângulos e orientações a fresca do vento e a ponta formosa.
Mas nao basta tanto esforço e decisão. Sobraram restos, de todos umas partes e das ruínas nas velhas casas, nivelados os seus solos `as modernas presenças, restam os espíritos e os fantasmas da ordem original, do escuro primordial. 
Rimos, de desesperanças, de vazias ambições e desejos, insatisfeitos permanentes que somos do adiado consumo e do prazer incompleto. 
Gritamos imprecações, mas nao ha’ saída possível ao beco escuro e `a longa sombra que se espalha ponto a ponto, sem fim ou limites, sem controle sobre a cidade.
Pressentimento de luto.


kleber frizzera
30/ 06/ 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sitio dos tempos


Numa famosa carta a Walter Savage Landor, Wordsworth expressou uma preferência por visões em que as margens das coisas se dissolviam, com toda fixidez e densidade postas em fluxo, com os limites recuando e as expectativas vindo à luz. 
Os sítios do tempo não são momentos do lugar, nem ocorrem em um lugar. 
As crenças podem se localizar num santuário ou num local similar, mas frutificações demandam um continuum temporal. 
A fonte de cenas e de sons não é um topos, mas um acontecimento que se estende por duas épocas e conserva vivo o passado no presente.
Harold Bloom

segunda-feira, 4 de março de 2013

A diferença ou a identidade



Capixabas
Seremos tão pouco diferentes, a apresentar aos viajantes insuficientes e repetidas paisagens, vazias de novidades e surpresas,
Somos tao iguais, repetindo a exaustão semelhantes identidades, sem singularidades, sem particulares situações a surpreender nossos vizinhos?
Ou talvez, neste jeito calado de ser, feito de barrocas metáforas e vidas incompletas, mal nos reconhecemos como únicos e aos outros, tão diversos, não abrimos nenhuma porta ao encontro e ao conflito casual ?
Afinal somos tão pouco iguais ou tão pouco diferentes, que para ninguém interessa este local ?
E o que tem a ver a escolha do território, seus limites, seus recintos, a história e seus eventos registrados em edifícios e ladeiras, com este modo de ser ?
Estarão selados, indeléveis em suas faces, marcados em seus pisos, estes nossos desígnios naturais ? 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Avenida Vitoria



Para onde caminha esta cidade, 
onde seus trilhos apontam em direção ao infinito, onde
os postes, em fila, organizam a paisagem e o olhar,
e, altaneiro, o morro da Fonte Grande delimita o horizonte?
Para onde caminham os seus,
os nossos,
os outros depois, os novos outros,
o braco forte,
para onde caminha esta cidade?

kleber frizzera
fevereiro 2013

domingo, 26 de agosto de 2012

Viva Vitoria


Está esta vila de Vitória  em lugar igualmente defensável e cômodo para a vida humana: cercado de água, habitável por arte, junto ao rio, perto da barra, senhor de pescarias e mariscos sem número. Seus arredores são terra fértil, capaz de grandes canaviais e engenhos, seus campos amenos, retalhados de rios e fontes, suas matas recendem, são delicias de cheiros, bálsamos, copaíbas, sassafrazes, seus montes estão prenhes de minas de varia sorte de pedrarias, e segundo dizem, de prata e ouro, e será feliz o tempo em que saiam a luz com seu parto".
Simão de Vasconcelos, Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil,  In História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira.  Vitória, 2o edição, 1975.

sábado, 19 de maio de 2012

Tarde demais

Mas será tarde demais;
e eu seguirei sem voz
entre os homens que não se voltam,
com o meu segredo.

Eugenio Montale

sábado, 7 de abril de 2012

A cidade metrópole Vitoria

Em um momento de insegurança, em um tempo atual de transição e de mudanças aceleradas, muitos fantasmas rondam a cidade.
Espectros sobreviventes de outras eras e começos.
Novos e inusitados acontecimentos movimentam o cotidiano, eventos inesperados reconfiguram o real, movem as coisas, as pessoas, o poder e as informações e as deslocam de seus lugares fixos. 
A globalização econômica aproxima on line o estranho, o inefável, o impossível. 
Onde apenas um grupo se reconhecia, outros indivíduos invadem as calcadas, bares e restaurantes, tornando estranho o mais próximo. A multidão ocupa as ruas, uma multidão heterogênea, anonima, de cidadãos novos, estimulados pelo prazer imediato, pela satisfação dos novos mundos.
Muitas viagens ocupam o transito e emperram o trafego. São desejos em acelerada circulação, na disputa apressada da ascensão, do dinheiro, da alegria,do consumo. Bloqueios estrangulam os percursos, e afinal “quem são estes que invadem os nossos lugares?”, quem são estes outros que impedem a minha liberdade e lomitam o meu movimento?
Novos compradores, novos outros, novos estrangeiros. 
Estrangeiros de outra fala e de uma outra língua, costumes e tradições, esquecidos após tantas viagens de suas origens.
                                                                                                                                                                                                                                                                                             Uma nova cidade explode suas ruínas em múltiplos fragmentos, que desmontam a ordem e o rigor tradicional, reconfiguram as posturas e as fronteiras, desmancham os pontos e as ligações originais. 
Onde ficaram assentados os antigos pontos de vistas e orientação, onde ficaram registrados os passados fundadores aos recentes viajantes e moradores?  
São visiveis os índices marcados para o navegante, mas significam, agora, alguma coisa para o imigrante, para a nova classe media e para os ricos, para o migrante técnico e para o executivo empresarial? 
Em uma cidade implantada em ilha, recortada pelas montanhas e montes, interrompida pelas águas e canais, a escolha ou a imposição de um ponto de vista é determinante para a  uma orientação e um pertencimento, para um modelo de interpretação e reconhecimento do seu território e lugar.
Assim, estar de frente ou de costas para o mar, morar de um lado ou outro do maciço central,  com pressa ou se extasiando lentamente, são escolhas que ao se diferenciarem e ao proporem posições e velocidades, definem lugares únicos ou melhores, mais certeiros ou mais verdadeiros para a definição de sua situacao social. 
De cada período histórico, sobrevivem partes e permanências, disjunções e continuidades a aproximar os diferentes tempos e historias e a separar singulares posições.
O porto, suas docas e navios, parece ser a marca mais permanente nestas transformações, mesmo com seus diversos cais se ampliando, retificando e orientando o litoral, e suas embarcações sempre presente em nossas vistas cotidianas, seus trabalhadores, suados, compartilhando a nossa vida política e cultural.  O porto permaneceu como ligação com o mundo, como uma tênue linha de contato com as mudanças que foram alterando além mar, levando e trazendo noticias de lá. 
Com o porto de Tubarão, afastados os navios ao horizonte marítimo, continuam presentes, próximo no centro e mais distantes na baia do espírito santo, como um marco da origem e da continuidade da vila portuária fundada pelos portugueses.
Se o porto, suas maquinarias e ritmados movimentos, com materialidade das mercadorias e a fluidez dos ventos  pode representar, em parte, a continuidade da tradição histórica e artificial da cidade, a natureza e suas marcas não seriam também este índice da continuidade e a primeira referência desta permanência imemorial? 
Como o fruto do embate dos imigrantes europeus  com a mata atlântica, ao fazer cortar, desmatar, plantar, onde o ritmo do plantio e da colheita se impõe à lógica do regular ritmo das estações naturais.
Como a racionalidade dos engenheiros de  retificar os limites com o mar, de apropriar os vazios, de ocupar os intervalos, as fronteiras dos mangues, dos morros, de encher os ares, submersas as linhas que antecederam a ação. 
Como a vontade que move os desejos dos jovens, que faz manter junto ao espirito da cidade, junto aos seus espectros, feitos de marcas que o tempo risca sobre as coisas, junto as suas palavras e pedras descarnadas, que faz, diz Agamben, reabrir esta passagem, na qual bruscamente a historia- a vida- cumpre as suas promessas.